Nosso destino é Azul Parte II

Uma mudança na data de chegada da volta ao mundo do veleiro Itusca a Garopaba pode ter salvado a vida de Flávio Jardim, um dos integrantes da expedição Destino Azul. Ainda no Oceano Pacífico, o jovem capitão comprometera-se a integrar a tripulação do veleiro Berserk que pretendia comemorar na Antártida o centenário da conquista do Pólo Sul pelo navegador norueguês Roald Amundsen. Para tanto, Flávio teria de chegar ao Brasil em janeiro, mas o catamarã brasileiro retornou apenas em 12 de fevereiro de 2011, após atravessar o Atlântico em 28 dias, desde a África do Sul.

Tripulantes do Berserk (ao lado). Três desapareceram no naufrágio do veleiro norueguês (abaixo) no Pólo Sul .  Eles queriam  levar Flávio Jardim na expedição.

O Itusca foi recebido festivamente por centenas de pessoas em Garopaba, após dois anos e meio de viagem ao redor do mundo. E, no dia 25 de fevereiro, o mundo ficou sabendo que o Berserk – veleiro com 15m, capitaneado pelo norueguês Jarle Andhoy - havia desaparecido na Antártida, com três de seus cinco tripulantes, em meio a uma tempestade. Andhoy, experiente aventureiro, se salvou - com um quinto tripulante - porque havia deixado a embarcação em snowmobiles para tentar atingir o Pólo.

Capitão amador desde os 21 anos, Flávio Jardim diz que a possível aventura no barco norueguês era uma das possibilidades de seguir viagem. “Quando estávamos voltando, bateu um medo de parar, de voltar à realidade. Se alguém me desse qualquer ideia de seguir viagem, eu toparia”, diz o aventureiro. Para Flávio, após viver dois anos e meio com apenas duas camisetas e duas bermudas, voltar a uma sociedade que valoriza mais o “ter” do que o “ser”, algo “totalmente errado”, era de assustar. A viagem provocou uma mudança de valores. “Antes dos 30 anos realizei todos os sonhos, dei a volta ao mundo depois de 10 anos de preparação; corri atrás, sofri, tive momentos bons. Eu sou! Posso ver como são simples nossos problemas, como a gente se prende em coisas banais.”

Mochileiros

A volta ao mundo da dupla Flávio Jardim e Diogo Guerreiro, poderia até ter sido realizada bem antes, mas a descoberta da possibilidade só ocorreu durante a viagem. Flávio relata que há muitos viajantes que simplesmente pegam carona nas embarcações, seja em troca de algum pagamento ou simplesmente completando tripulações. É uma instituição: em todas as marinas ao redor do mundo existem bilhetes no mural oferecendo ou pedindo carona. “Quando duas jovens da África do Sul pediram, em Fortaleza, para viajar conosco até o Caribe, achamos aquilo esquisito e negamos. Depois descobrimos que isso é normal e que nosso pensamento é que era pequeno”, conclui.

A dupla de navegadores catarinenses estava preparada para o que desse e viesse. “A natureza a gente consegue prever e estávamos equipados para enfrentar as dificuldades da melhor maneira possível. Mas quando se trata de fatores humanos, aí é muito diferente, imprevisível”, comenta Flávio para falar do pior momento da aventura do Itusca. Foi a passagem por Madagascar, em meio a piratas da Somália. “Parei de fazer barba, de escovar os dentes, não escrevia no diário; passamos 15 dias achando que íamos perder o barco e enfrentar muita complicação, no mínimo um sequestro com pedido de resgate. Tínhamos armado todo um esquema para fugir do barco num salva-vidas com GPS telefone e sinalizadores, mas nunca se sabe”.

Flávio avalia que o principal saldo da longa aventura foi ter aprendido a viajar: “Chegar nos lugares realmente, com a mente aberta para conhecer as pessoas, fazer amizades, trocar informações e vivenciar outras culturas”. Segundo ele, o medo de errar no inglês foi um dos motivos da demora para desencantar. “Conforme se perdeu o medo de falar, começou outra viagem, totalmente diferente. Por isso, acho que a gente apenas olhou para o Caribe, e só depois passamos a curtir plenamente a aventura”.

Novas aventuras

As próximas aventuras do projeto Destino Azul ainda são secretas. Mas uma coisa é certa: Diogo Guerreiro não volta ao curso de Arquitetura e dificilmente Flávio Jardim retorna ao Direito.

A aventura virou modo de vida e de ganhar a vida. Recordistas do Guiness, pela aventura de windsurfe, eles são requisitados para palestras motivacionais em órgãos públicos, universidades e empresas. O livro sobre a aventura do Itusca ainda está por ser escrito, assim como a formatação de um vídeo-documentário com imagens registradas no trajeto.

A volta ao mundo a bordo do catamarã não foi uma aventura isolada na vida de Diogo e Flávio. Expedições anteriores deixaram a marca do projeto, iniciativa de quatro jovens catarinenses, incluindo Eduardo Moreira e Fabio Braga (que se afastaram do projeto para cursar a universidade).

Após uma experiência assustadora em julho de 2000, quando uma onda virou seu veleiro a 100 km da costa numa tempestade no sul do Brasil, os rapazes de 17 anos despertaram para “a importância de um planejamento consistente e profissional, visando à segurança e o êxito na conquista dos seus objetivos”, segundo Diogo.

Recordes

Apesar de ainda jovens, os integrantes do Destino Azul, têm grande experiência no planejamento e execução de expedições. Tendo sido os mais novos capitães amadores do País, os aventureiros navegaram 4 mil milhas (7.500km) de Florianópolis/SC a Fernando de Noronha/PE (ida e volta) em 2002.

Foi a tripulação brasileira mais jovem a vencer uma regata oceânica internacional, a Refeno 2002, cat. RGSd. E, entre maio de 2004 e julho de 2005, Diogo e Flávio percorreram a costa do Brasil, do Oiapoque ao Chuí em windsurfs, sem acompanhamento por terra.

Tornaram-se os recordistas mundiais em distância percorrida de windsurf (Guiness Book) e foram também a menor embarcação a vela a percorrer a costa brasileira. A expedição gerou o livro “Tempestades e Calmarias” (ed. Marco Zero) e o documentário “Destino Azul do Chuí ao Oiapoque”.

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